
- Onde está sua vela? Perguntou um senhor de barba crescida, entroncado e de média estatura. - Está ali e ainda queima! Respondi indicando o local onde queimava, já pela metade, a vela que outrora me fora dada, em confiança, por outro soldado que comigo, estivera. Ela estava ao lado da entrada de uma velha tumba, meio que abandonada. Eu me prontifiquei em limpá-la, em homenagem àquele que ali descansa os seus restos mortais e que provavelmente fora esquecido por aqueles que ali o depositaram. Neste momento, fui informado que meus olhos seriam vendados e que eu deveria ser totalmente honesto quanto ao fato de nada ver. Foi neste ato que, eu acredito, minha viagem se iniciou. Fui guiado pelas vielas entre tumbas, sempre instruído por meu guia que me orientava as direções, ora a direita e ora a esquerda. Ouvia a respiração do meu guia e a conversa dos transeuntes que encontrávamos pelo caminho. O vai e vem dos veículos que passavam apressados, cada um com suas urgências. Era um dia cinzento e úmido e, de vez em quando, ouvia meu guia: - Atenção com os degraus, são três! - Agora! Nunca fora guiado por alguém e a sensação era muito desconfortante e estranha! A insegurança de não ter o sentido da visão é indescritível. Repentinamente ouvi a porta de um veículo se abrir e fui, neste instante, orientado pelo meu guia: - Cuidado com a cabeça! Entrei no veículo e fui acomodado bem ao canto esquerdo do mesmo. Eu já não sentia o desconforto de andar vendado e senti uma certa segurança. As portas se fecharam e o veículo se movimentou ladeando o local onde eu estivera. Em certa altura do trajeto, o mesmo virou a esquerda e estacionou. Pude perceber que os ocupantes na direção do veículo saíram, fiquei sozinho e assim permaneci por alguns minutos. Neste ínterim, pude me recompor e fazer uma análise da situação. Não tinha nenhuma expectativa, mas nutria a esperança e a confiança que tudo estava bem. Meus pensamentos e análises foram interrompidos quando a porta do veículo foi aberta e repentinamente foi introduzido mais algumas pessoas que foi capturado. Bem, já não estava sozinho, embora o silêncio imperasse, pois, somente eu sabia que ele estava ali e não fiz nenhum movimento para que ele percebesse da minha presença. Queria o silêncio para meditar, procurava o som do inaudível e tinha a certeza que havia mensagens a serem recebidas. Passados alguns minutos, outros três prisioneiros foram também introduzidos no veículo, então estávamos em cinco. O silêncio permaneceu entre nós, sendo, de vez em quando, quebrado pelo insistente pigarro de um dos que ali estavam ou a conversa ligeira dos guias que o veículo conduzia, mas nada que conseguisse quebrar o meu estado meditativo. O veículo partiu em movimento a zigue-zaguear frenético entre ruas, vielas, avenidas, curvas e lombadas, que em muitas das vezes, me obrigava a ajustar o meu corpo em posição segura e confortável. A certa altura deste trajeto, o veículo diminuiu a marcha e a porta do compartimento onde estávamos sentados foi aberta para a ventilação do ar, já viciado. Porta aberta e a sensação de frescor pelo ar que entrava e a renovação dos ânimos eram evidentes, pois, todos estavam oprimidos pelo calor da clausura. Depois de algumas idas e vindas, penso eu, o objetivo era de nos desorientar. O veículo parou e um a um fomos retirados de seu interior. Ao fundo podia se ouvir um barulho de enxada limpando algum terreno. Fomos conduzidos por diversos obstáculos que deveriam ser vencidos. Vencidos os obstáculos, fomos introduzidos em uma sala, isso não antes de subir por escadas com voltas e degraus de diferentes tamanhos. Meu Deus! Como é difícil estar sem a visão! Ali permanecemos por um longo período. Em minha mente sempre vinha a imagem de minhas filhas, netos e de minha adorável esposa. Estava ali por mim, por elas e por todos nós! Eu já não me encontrava mais em estado meditativo, mas com os meus sentidos de audição, tato e paladar atentos a todos os movimentos. Estava tranquilo, sabia o que buscava e o que queria. Percebi o toque de vários dos presentes, mas como os meus sentidos estavam intensamente ativos, senti uma “mão amiga”. Digo “mão amiga” em homenagem a alguém ao qual, agora, sempre o chamo de “mão amiga”. Por ele senti uma afinidade e uma segurança, pois sim, estava entre amigos. Permanecemos sentados e em silêncio por longo tempo, tempo este, que me levou a um estado de reflexão profunda sobre todo o trajeto de minha caminhada neste plano existencial. Quantas iniciações e ordenamentos, quantos segredos, quantas palavras que não se pode pronunciar e outras tantas que não se pode escrever, tantos ritos, símbolos e sigils. De repente, fui despertado pelo início das atividades do lado de fora e percebi que algo estava para começar. Meus sentidos estavam ativos, havíamos feito uma refeição rápida, mas eu não estava com apetite e sim com muita sede. Fomos levados por um dos presentes, que retirou uma parte de nossas roupas. Levantaram meus braços e o amararam acima da cabeça. Pensei comigo, estamos já a caminho, quero estar atento o máximo de todos os detalhes e de todo o caminho. A comunicação entre os membros, eram feitas por assobios e tudo transcorria de forma mais ou menos ordenada. A sensação de mistérios e apreensão, permanecia no percurso de um longo caminho percorrido por labirintos subterrâneos. Labirintos estes, permeados com o ar viciado e pelo odor da do sebo queimado, resultante das chamas que cintilavam como fantasmas. As chamas se uniam aos mascarados, que bradavam em alto e bom som: “- … não estarás bem entre nós. - … aqui não as reconhecemos. - … retira-te! - … não vás adiante”. A penumbra não me permitia enxergar. Estava sufocado pelo fumo que impregnava o ambiente e também ensurdecido pelos gritos e ruídos. Caminhei entre os dois mundos, do onírico para o real e de volta do real para o onírico. Estive, nestes momentos, entre o mundo dos monstros e o mundo dos entes de luz, transitando entre um e outro. Percebi o escabro do caos e seus obstáculos. O ruído do confronto entre a razão e a insanidade, da organização dos mundos e seus ideais. A razão e as leis, sendo totalmente dominados pelos excessos dos homens em desequilíbrio. O antagonismo das forças, com o som de seus trovões me remeteram, como se em um sonho, na luta diária comigo mesmo entre o bem que quero fazer e o mal que sempre, diante de mim, está para que eu o faça. Sabia que aquilo tinha um fim e sentia que a esperança não desvanecera e a fé se fortalecia. Como uma semente, que após o longo período no seio da mãe terra, foi-lhe permito nascer, assim eu também venci o terror da morte e conquistei o direito de germinar. Meus pensamentos estavam invadidos pela indagação, se ainda havia algum outro mundo a conhecer, quando fui arrastado por energias telúricas, novamente viajei do real para o mundo dos onírico e do onírico para o mundo real, ao redor se ouvia o tilintar das espadas movidas pela ambição. Pensei, este é o mundo em seu confronto diário. É o homem que, em seu desatino, e na ânsia de amealhar valores materiais, não se apercebe que ser é de muito maior valia, do que ter. Ser requer muito maior esforço, diante de uma sociedade que valoriza o consumo e a exibição das conquistas materiais. Ser, é a descoberta dos valores humanos e sua importância na motivação da vontade e no alcance do reconhecimento digno entre os seus. Esta segunda etapa, embora aparentemente mais fácil, penso que não o seja, pois, é o confronto do homem consigo mesmo, diante da imposição da estrutura e dos valores sociais. Ainda que ele possa se fazer de desentendido, estes valores o chamarão a razão. E, quando isto acontecer, este dia será o mais importante de sua vida. Nesta ocasião, ele será confrontado com as verdades contidas nestes valores. Assim como, também, o foi o Profeta Jonas, que lamentou a morte de uma espécie de mamoneira, mas não lamentava a morte de um povo ignorante, que não sabia discernir a mão direita, da esquerda ou entre o bem e o mal. Resplandece em minha mente a mesma questão, quais são os meus valores? Por onde ando? O que estou fazendo? Retorno a minha lucidez e desta vez, sabia que ainda havia muito mais a ser provado. Novamente fui guiado por um dos presentes e não sabia eu que esta era a última etapa a ser realizada, e novamente transitei do mundo real para o mundo onírico e novamente do mundo onírico para o mundo real. Percebi que somente havia o som do silêncio, a mensagem inaudível podia ser ouvida. Havia ordem no caos e já se podia sentir as formas. Pude, ainda que minimamente, entender a expressão de Deus, “- E viu Deus que a luz era boa!”. Neste sentimento acendeu, ainda que ao longe, uma luz em meu coração e mesmo estando sem visão, em meio a desolada escuridão, pude sentir o meu ser estremecer diante da lembrança da expressão “et lux in tenebris lucet” - e a luz resplandece nas trevas, minha mente se voltou novamente a lembrança de minhas filhas, meus netos e minha adorável esposa. E por fim senti! O que vim buscar, alcancei! Eu já estou a caminho!
Vá! Vá agora! Não pare no caminho, o tempo tem pressa!
A vela está acesa, e a chama ainda queima!
¡Vaya! ¡Vaya ahora! No se detenga en el camino, el tiempo tiene prisa!
La vela está encendida, y la llama aún quema!
Go! Go now! Don't stop in the way, the time have hurry!
The candle is lit, and flame still burn!
Bàbá Oju mla Ègbé
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